Tecnologia e Inovação

Inteligência artificial na contabilidade: mais tempo para ser contabilista

A inteligência artificial pode libertar os contabilistas de tarefas repetitivas e criar mais tempo para análise, aconselhamento e relação com os clientes.

Sage
Publicado em 10 minutos de leitura

A Inteligência Artificial não substitui o contabilista. Devolve-lhe tempo para ser mais contabilista.

Há um recurso que nenhum contabilista consegue aumentar: o tempo.

Pode investir em formação, contratar mais pessoas, implementar novos processos ou adotar software mais avançado. Mas continuará limitado pelo único recurso que não pode aumentar: o tempo.

É precisamente por isso que a Inteligência Artificial (IA) está a ganhar relevância na profissão contabilística: não porque faz o impossível, mas porque permite produzir mais valor dentro do mesmo limite de tempo.

Ao contrário do que por vezes se pensa, a principal revolução da IA não é substituir as pessoas. É libertar os profissionais das tarefas mais repetitivas para que possam dedicar mais tempo àquilo que realmente diferencia o seu trabalho: analisar, interpretar, aconselhar e apoiar a tomada de decisão.

Embora hoje se fale muito de IA, a verdade é que a tecnologia tem décadas de evolução. A IA tradicional foi criada para analisar dados, identificar padrões e fazer previsões. A IA generativa acrescentou uma nova capacidade: criar conteúdo, explicar informação e gerar recomendações. De forma simples, a primeira ajuda-nos a compreender os dados; a segunda ajuda-nos a criar algo novo a partir deles. Na contabilidade, a diferença pode ser vista entre um sistema que identifica um aumento anormal nos gastos e outro que explica as suas causas prováveis, avalia o impacto na rentabilidade e sugere medidas corretivas.

Índice do post

A automação não começou com a IA

Quando se fala de inteligência artificial, é comum ouvir que a contabilidade está a entrar numa era totalmente nova. Na realidade, o setor tem vindo a automatizar processos há décadas.

Reconciliações bancárias automáticas, importação de documentos, integração de dados, arquivo digital ou processamento automático de movimentos são hoje uma realidade em muitos escritórios de contabilidade. A automatização já fazia parte da profissão muito antes da chegada da IA generativa.

E vai continuar, porque a automatização é necessária. Mas vale a pena não confundir os conceitos. Nem tudo o que é automático é inteligência artificial. Se fosse, uma simples calculadora já seria IA há mais de cinquenta anos.

O que muda agora é a capacidade dos sistemas de compreender linguagem natural, interpretar contexto, resumir informação e responder a perguntas de forma mais próxima da interação humana. Em vez de apenas seguir regras pré-definidas, a IA consegue apoiar a análise e a interpretação da informação.

Esta evolução abre novas oportunidades para os contabilistas, mas também exige uma mudança de mentalidade: a IA deve ser encarada como uma ferramenta de apoio, e não como uma fonte infalível de respostas.

A IA não é um oráculo

Existe uma tendência para apresentar a IA como uma tecnologia capaz de resolver qualquer problema. Essa visão é perigosa.

A IA é uma ferramenta extraordinária, mas continua a depender dos dados que recebe, do contexto fornecido e da supervisão humana. Pode cometer erros, interpretar incorretamente determinadas situações ou gerar respostas que necessitam de validação.

Por essa razão, a utilização responsável da IA na contabilidade deve assentar em três princípios fundamentais:

  • Contexto adequado;
  • Espírito crítico;
  • Validação profissional.

O papel do contabilista não desaparece. Pelo contrário, torna-se ainda mais relevante enquanto garante da qualidade, fiabilidade e conformidade da informação.

O futuro é inteligência aumentada, não substituição

Durante muito tempo, o debate em torno da IA centrou-se numa pergunta: “Será que a tecnologia vai substituir os contabilistas?”

Talvez a pergunta mais útil seja outra:

“Que trabalho deve continuar a ser feito manualmente por um contabilista?”

As tarefas repetitivas e de baixo valor acrescentado são candidatas naturais à automação. Já as atividades que exigem julgamento profissional, interpretação de contexto, responsabilidade técnica e relacionamento com o cliente continuam a depender fortemente da intervenção humana.

Cada vez mais especialistas defendem o conceito de inteligência aumentada: a combinação entre a capacidade técnica dos profissionais e a capacidade computacional da IA. Neste modelo, a tecnologia funciona como um amplificador de produtividade e conhecimento, ajudando os contabilistas a dedicar mais tempo às atividades de maior valor.

A verdadeira vantagem competitiva não pertencerá à IA isoladamente, nem aos profissionais que ignorarem a tecnologia. Pertencerá aos que aprenderem a trabalhar em conjunto com ela.

O contabilista continua a ser quem dá significado aos números

Os números, por si só, raramente contam toda a história.

Uma quebra na margem pode indicar uma pressão nos custos, uma estratégia de crescimento ou uma situação conjuntural. Um aumento de despesas pode ser sinal de ineficiência ou de investimento futuro. A IA pode identificar padrões e tendências, mas continua a ser o contabilista quem compreende o contexto empresarial e transforma dados em conhecimento útil.

Existe ainda outra dimensão frequentemente esquecida: a humana.

Um empresário que enfrenta uma situação financeira adversa, um cliente sobrecarregado pelas exigências administrativas de prestar informação a bancos, investidores ou outras entidades, ou alguém que precisa de tomar uma decisão importante para o futuro do seu negócio não procura apenas uma resposta técnica. Procura confiança, orientação e alguém que assuma responsabilidade pelo aconselhamento prestado.

A IA pode explicar uma norma. A IA poderá até conseguir explicar o motivo de uma empresa estar em dificuldades. A IA lê números. O contabilista não só lê números como lê pessoas. O contabilista compreende a realidade de quem está do outro lado da mesa. O contabilista percebe o estado emocional do seu cliente.

É precisamente nessa capacidade de interpretar, comunicar e criar confiança que reside uma parte significativa do valor da profissão.

Saber perguntar é uma nova competência profissional

Uma das maiores surpresas para quem começa a utilizar IA é perceber que a qualidade das respostas depende fortemente da qualidade das perguntas.

Pedidos genéricos tendem a gerar respostas genéricas.

Na contabilidade, a precisão é essencial. Quando as instruções são vagas, a IA fica obrigada a fazer suposições, aumentando o risco de erros ou conclusões inadequadas ao contexto.

Uma boa interação com IA deve incluir quatro elementos essenciais:

  1. Persona – Quem deve a IA assumir que é?
  2. Contexto – Qual a situação e quem irá utilizar a resposta?
  3. Instrução – O que exatamente deve ser feito?
  4. Formato – Como deve a resposta ser apresentada?

Por exemplo, em vez de pedir:

“Analisa este balancete.”

Pode ser muito mais eficaz pedir:

“Atua como um contabilista certificado experiente. Estou a preparar uma reunião de acompanhamento com um cliente e pretendo identificar os principais pontos de discussão. Com base neste balancete, identifica os 5 temas mais relevantes para abordar na reunião. Para cada tema, explica por que motivo merece atenção e sugere uma pergunta estratégica que ajude o empresário a tomar melhores decisões. Apresenta o resultado em formato de bullets.”

A diferença entre os dois pedidos pode traduzir-se numa diferença significativa na qualidade do resultado obtido.

O mesmo acontece na escolha das ferramentas de IA. Embora muitas soluções gratuitas sejam excelentes para tarefas simples, as versões mais avançadas tendem a oferecer maior capacidade de raciocínio, mais contexto, respostas mais consistentes e, em muitos casos, mecanismos adicionais de controlo, privacidade e proteção da informação. A diferença pode parecer pequena em questões simples, mas torna-se evidente em situações mais complexas ou quando se trabalha com informação sensível.

Mais produtividade significa mais proximidade

Muitas vezes, quando se fala de IA, o foco recai exclusivamente sobre eficiência.

Mas o verdadeiro ganho pode ser outro.

Se a tecnologia reduzir o tempo investido em tarefas administrativas e repetitivas, os contabilistas poderão dedicar mais tempo aos seus clientes. Poderão preparar melhor reuniões, antecipar riscos, explicar indicadores financeiros de forma mais clara e desempenhar um papel mais estratégico na gestão dos negócios.

Em vez de substituir o relacionamento humano, a IA tem potencial para reforçá-lo.

Imagine uma reunião trimestral com um cliente. Sem apoio tecnológico, parte significativa do tempo de preparação pode ser consumida a reunir documentos, analisar movimentos e identificar variações relevantes. Com IA, uma parte desse trabalho pode ser realizada em minutos.

O futuro da profissão está a ser construído hoje

A contabilidade sempre evoluiu através da adoção de novas ferramentas e tecnologias. O livro em papel deu lugar às folhas de cálculo. As folhas de cálculo deram lugar aos ERP. Os ERP deram lugar à automação.

A IA é apenas o capítulo seguinte dessa evolução.

O desafio não está em decidir se a IA fará parte da profissão. Essa transformação já começou.

O verdadeiro desafio é perceber como utilizar essa tecnologia para aumentar a qualidade do serviço prestado, melhorar a produtividade e criar mais valor para clientes e empresas.

Porque, no final, a IA não vem substituir o contabilista.

Vem substituir parte do trabalho que impede o contabilista de exercer plenamente aquilo que faz melhor: compreender negócios, apoiar decisões e gerar confiança.

Mas a tecnologia, por si só, não substitui a responsabilidade profissional. As suas sugestões podem ajudar a acelerar análises, identificar padrões ou apoiar decisões, mas a validação final continua a pertencer ao contabilista.

Na Sage acreditamos que a IA não deve ser uma ferramenta isolada que obriga os profissionais a alternar entre diferentes aplicações. O verdadeiro potencial surge quando a tecnologia está integrada de forma natural nos processos e ferramentas que os contabilistas utilizam todos os dias. É por isso que o futuro da profissão está a ser construído hoje. Na Sage, continuamos a investir na integração da IA no Sage for Accountants, trabalhando lado a lado com os nossos contabilistas early adopters para validar, evoluir e aperfeiçoar esta nova geração de experiências. A nossa visão passa por disponibilizar capacidades de IA diretamente nas soluções que os contabilistas já utilizam, combinando inovação, produtividade e a confiança necessária para trabalhar com informação sensível de forma responsável. Em breve partilharemos mais novidades sobre essa jornada.

Este artigo foi inspirado em conteúdos e reflexões abordados no âmbito da formação sobre Inteligência Artificial aplicada à Contabilidade, ministrada na Universidade de Aveiro pelos Professores Miguel Resende e André F. Costa, complementados pela experiência prática e pela visão do autor sobre a aplicação da IA ao desenvolvimento e utilização de software para contabilidade.

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