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Porque devem os fabricantes substituir as cadeias de fornecimento por redes de fornecimento

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A pandemia do coronavírus (COVID-19) demonstrou aos fabricantes que as cadeias de fornecimento modernas são excecionalmente eficientes, mas também deficientes no que diz respeito à resiliência.

Espantosamente, 200 das 500 maiores empresas do mundo, segundo a Fortune,  estão presentes em Wuhan, o epicentro da epidemia. Como tal, bastou o confinamento naquela cidade para desestabilizar as cadeias de fornecimento de 40% das principais empresas do mundo.

E não estão sozinhas.

Como as empresas se têm concentrado no preço – em baixar custos – durante a última década (sobretudo porque a austeridade que resultou da crise financeira transformou o corte de custos numa prioridade), tem havido muitos incentivos à compra de materiais tão baratos quanto possível, provenientes de um leque de origens ilimitado e global.

A distância não é uma preocupação, se o preço for o certo. Mesmo no caso das pequenas e médias empresas (PME), as cadeias de fornecimento muitas vezes estendem-se por todo o globo.

De que forma podem as cadeias de fornecimento lineares ser benéficas

A tentação que se segue é a de cortar ainda mais nos custos ao comprar a um único fornecedor, sobretudo se o material for barato. É compreensível. A Dawson Consulting dá conta de que, além de reduzir os custos, a cadeia de fornecimento linear oferece muitos outros benefícios:

  • Criará uma relação forte com apenas um fornecedor – será mais simples desenvolver lealdade e mais fácil mantê-la
  • Melhorará os processos de última hora, diminuindo a complexidade e reduzindo os estoques
  • É provável que beneficie de preços por volume

Desvantagens das cadeias de fornecimento lineares

A desvantagem é, claro, que uma perturbação como o coronavírus pode parar as linhas de produção em poucos dias.

Fórum Económico Mundial afirma: “O impacto do confinamento na China e do domínio desta em áreas-chave do fabrico expõe novamente o problema das atuais cadeias de fornecimento.

“Quando as fábricas chinesas encerraram, os fabricantes tiveram dificuldade em encontrar alternativas devido à falta de flexibilidade da sua base de fornecimento… As empresas multinacionais, como a Apple, a Alphabet, a Starbucks, a McDonald’s e a Proctor and Gamble fecharam unidades de produção, escritórios e restaurantes em toda a China.”

O que deve ter em conta na adoção de uma rede de fornecimento

Está claro que chegou a altura de as empresas alargarem as suas cadeias de fornecimento. Eis como construir uma rede de fornecimento:

  1. Não opte sempre pelo mesmo

Sem surpresas, a China deixou de poder ser a única opção viável.

O Fórum Económico Mundial sugere que “os polos da manufatura, como o Vietname, o México e a Índia” serão os grandes beneficiários da adoção de uma perspetiva mais alargada.

A consultora Deloitte também aponta o Chile e o Brasil como fortes opções emergentes.

  1. Procure nas redondezas

A solução pode estar mais perto do que julga.

Como afirma a Deloitte: “Pode haver oportunidades no ecossistema, incluindo o estabelecimento de fundos partilhados de recursos para o estoque de matérias-primas, que é uma abordagem a que as grandes empresas na China já recorreram em anteriores momentos de crise.”

  1. Considere os mercados de comércio entre empresas

O seu próximo fornecedor pode estar à sua espera na Internet.

A Alibaba (que está atualmente longe de se concentrar exclusivamente na China) lidera o mercado, mas há várias alternativas. A Tradeshift, por exemplo, vem com um conjunto de integrações de terceiros.

A plataforma Marco Polo, da TradeIX, por sua vez, promete dar acesso às ferramentas de gestão até à mais pequena PME, o que tornará a gestão de cadeias de fornecimento acessível a todos.

Como se lê no Raconteur: “Uma plataforma oferece às empresas a capacidade de verem muito para lá das suas paredes.

Torna-se possível receber atualizações automáticas dos fornecedores, armazenistas, parceiros de logística e profissionais de serviços financeiros num único ambiente… As melhores plataformas oferecem uma comunidade global de utilizadores.”

  1. Interrogue os seus fornecedores sobre mais do que apenas a qualidade do produto

Como será tratado se houver problemas com as entregas? São resilientes, a montante da cadeia?

Como afirma a Deloitte: “Adote abordagens digitais para iluminar a rede de fornecimento, para ganhar visibilidade no fornecimento de componentes críticos o mais cedo possível.”

  1. Seja proativo – e gaste um bocadinho

Morris Cohen é co-diretor do Centro Fishman-Davidson para a Gestão de Serviços e Operações da Wharton School of Business.

Afirma Cohen: “Se quiser estar preparado para uma ocasião de risco aleatório, terá de  fazer investimentos e tomar decisões antecipadamente, antes que a ocorrência tenha lugar.”

É tarde demais para agir em relação ao coronavírus, mas a lição está aí: a mitigação do risco está na mão de todos os empresários.

  1. Invista na proximidade

Além de diversificar a sua cadeia de fornecimento, poderá também querer encurtá-la.

Um colega de Cohen, Marshall Fisher, afirma: “Será que vamos fazer uma pausa no processo de globalização? Isso já estava a acontecer por um conjunto de razões, incluindo as guerras comerciais com a China e outras regiões sobre as tarifas e o Brexit.

As perturbações na área do comércio já estão a levar as empresas a repensar a sua abordagem à globalização e a basicamente desinvestirem no processo.”

A consultora McKinsey acrescenta: “O Banco de Desenvolvimento do Japão, detido pelo Estado, está a planear subsidiar as empresas que regressem ao Japão; e alguns países europeus, incluindo a França, preparam-se para investir na indústria interna no que diz respeito ao fornecimento de produtos críticos, como os da indústria farmacêutica.”

Em todo o Ocidente há um imperativo político claro sobre a importância de trazer o comércio de volta a casa.

Reflexões finais

O custo e a resiliência estarão sempre em conflito. Atualmente, o equilíbrio está a regressar, com o maior peso atribuído à resiliência.

Isto é expresso claramente por Robert O’Sullivan, CFO na Europa, e VP da área financeira da gigante alimentar Kellogg’s Europa, num relatório para a consultora EY.

Afirma O’Sullivan: “Em anos recentes, à exceção das pessoas e da segurança alimentar, que serão sempre as maiores prioridades, os negócios como os nossos têm analisado as suas cadeias de fornecimento sobretudo segundo a perspetiva do custo, enquanto fator que permite a expansão das margens.

Na sequência da pandemia, haverá outra perspetiva: a da resiliência.

O desafio passará por encontrar o equilíbrio certo entre os dois.  Aqueles que dispõe de uma cadeia de fornecimento resiliente desfrutarão de uma imensa vantagem competitiva neste período, e julgo que será assim no longo prazo.”

O conselho é claro: diversificar a cadeia de fornecimento tem custos, mas em tempos de incerteza todos os fabricantes devem ter opções alternativas de segurança.