Tecnologia e Inovação

Tecnologias Críticas: O que são, porque importam e como a sua empresa pode beneficiar?

Num contexto marcado pela forte dependência de mercados externos para setores críticos, a União Europeia inicia uma mudança estratégica rumo à autonomia. Investir na produção própria de semicondutores, baterias e princípios ativos farmacêuticos representa não só um reforço da resiliência económica, mas também uma aposta clara na competitividade futura.

Sage
Publicado em 12 minutos de leitura

Num mundo onde semicondutores, baterias e princípios ativos farmacêuticos são produzidos maioritariamente fora da Europa, a União Europeia tomou uma decisão histórica: parar de depender e começar a produzir.

É neste contexto que nasce a Strategic Technologies for Europe Platform (STEP), uma plataforma de coordenação europeia que redireciona mais de mil milhões de euros em Portugal para um único objetivo: garantir que as tecnologias do futuro são desenvolvidas e fabricadas em solo europeu.

Para as empresas portuguesas do setor de tecnologia e inovação, esta é uma das maiores oportunidades de financiamento da última década. Neste artigo explicamos o que são as tecnologias críticas, quais os setores prioritários, como posicionar o seu modelo de negócio para ser elegível e como aceder ao financiamento disponível.

Índice do post

O que são as Tecnologias Críticas?

Nem toda a inovação é considerada “crítica” ao abrigo da plataforma STEP. O conceito de criticidade assenta em dois pilares fundamentais:

  1. Inovação disruptiva e de vanguarda: Quando representa um salto qualitativo em relação ao estado da arte do Mercado Único. Não se trata de melhorar um processo existente, trata-se de criar algo que a Europa ainda não produz ou domina. Exemplos incluem computação quântica, fotónica de silício ou biotecnologia capaz de produzir biomoléculas com pureza farmacêutica em escala industrial.
  2. Pilar: Redução de Dependências Estratégicas: Uma tecnologia também é crítica quando o seu desenvolvimento em solo europeu reduz diretamente a vulnerabilidade da UE face a choques externos. Se a interrupção de um fornecimento, como chips asiáticos ou princípios ativos farmacêuticos produzidos fora da Europa, pode paralisar setores inteiros da economia, então desenvolver essa tecnologia internamente torna-se uma questão de segurança estratégica.

Quais são as Tecnologias Críticas prioritárias para a Europa (e para Portugal)?

A STEP organiza as tecnologias críticas em três grandes domínios. Dentro de cada domínio, a elegibilidade não se limita ao produto final, abrange toda a cadeia de valor, incluindo equipamentos, componentes e software especializado.

Digital e Deep-Tech

As tecnologias digitais são as “habilitadoras” de todos os outros setores. Sem domínio de hardware e software crítico, a indústria europeia fica dependente de infraestruturas controladas por terceiros.

Os subdomínios prioritários incluem:

  • Semicondutores avançados: microeletrónica, fotónica, chips de alta frequência e equipamento de fabrico de nós nanométricos;
  • Inteligência Artificial: algoritmos de deep learning, computação de alto desempenho (HPC), cloud e edge computing, visão por computador;
  • Computação e comunicações quânticas: computação quântica, criptografia quântica (QKD), sensores quânticos;
  • Conectividade e Cibersegurança: redes Open RAN / 5G / 6G, blockchain industrial, sistemas de posicionamento e navegação (PNT);
  • Robótica e sistemas autónomos: veículos autónomos, exoesqueletos, robótica de precisão cirúrgica ou industrial;

Conheça em detalhe cada uma destas tecnologias digitaiss

Tecnologias Limpas (Clean-Tech)

Alinhadas com o Net-Zero Industry Act, as clean-tech são o motor da reindustrialização verde europeia. Portugal, com os seus recursos naturais (sol, vento e lítio), tem um posicionamento estratégico único neste domínio.

Subdomínios prioritários:

  • Produção e armazenamento de energia: solar fotovoltaico de nova geração, eólico offshore, baterias de estado sólido, hidrogénio verde (eletrólisadores e células de combustível);
  • Eficiência e redes energéticas: redes elétricas inteligentes, bombas de calor, biogás e biometano, combustíveis de aviação sustentáveis (SAF);
  • Descarbonização industrial: captura e armazenamento de carbono (CCS/CCUS), eletrificação de processos térmicos pesados, propulsão limpa marítima;
  • Materiais avançados e economia circular: nanomateriais, fabrico aditivo (impressão 3D), reciclagem de baterias de lítio e extração de terras raras;

Conheça em detalhe cada uma destas tecnologias

Biotecnologias e Bioeconomia

A pandemia de COVID-19 expôs a fragilidade da Europa na cadeia farmacêutica. A STEP responde com um investimento estrutural na soberania da saúde.

Subdomínios prioritários:

  • ADN, ARN e engenharia genética: vacinas de mRNA de nova geração, edição genética (CRISPR/gene drive), farmacogenómica;
  • Cultura celular e engenharia de tecidos: terapias celulares regenerativas, bioimpressão 3D de tecidos e órgãos;
  • Bioprocessamento e bioinformática: biorreatores industriais, biocatálise, produção de Princípios Ativos Farmacêuticos (APIs), nanobiotecnologia para administração dirigida de fármacos;

Conheça em detalhe cada uma destas biotecnologias

Como adaptar o seu modelo de negócio às Tecnologias Críticas

Ser elegível para a STEP não é apenas uma questão de setor, é uma questão de posicionamento estratégico. Aqui estão os quatro movimentos que as empresas de tecnologia e inovação devem considerar:

  1. Avaliar o alinhamento com a Soberania Europeia: O primeiro passo é a autoavaliação honesta: a sua empresa desenvolve ou produz algo que reduz a dependência da Europa de fornecedores externos? Consegue quantificar esse impacto? Se a resposta for sim, o enquadramento STEP está ao alcance. Se for ainda incipiente, pode ser necessário reorientar a proposta de valor do projeto de I&D ou produção.
  2. Posicionar o projeto na cadeia de valor correta: Muitas empresas não percebem que a elegibilidade STEP se estende a toda a cadeia de valor. Uma empresa que fabrica biorreatores de alta precisão, produtores de máquinas e equipamentos, ou software de gestão de redes inteligentes, mesmo sem ser a produtora do “produto final crítico”, pode ser elegível. O critério é contribuir de forma essencial para que a tecnologia crítica exista em solo europeu.
  3. Escolher entre Inovação Produtiva e I&D: Em Portugal, os projetos STEP enquadram-se em duas tipologias:
  4. Inovação Produtiva (STEP): para empresas que pretendem escalar industrialmente, criar novas linhas de produção, expandir unidades existentes ou diversificar para novos produtos críticos. O foco é o scaling-up.
  5. IDI Empresarial (STEP): para empresas ainda em fase de investigação, prototipagem ou validação tecnológica. O objetivo é criar propriedade intelectual europeia e superar o “vale da morte” entre laboratório e mercado.

A escolha entre as duas tipologias deve refletir o nível de maturidade tecnológica (TRL) atual do projeto e onde se pretende chegar com o investimento.

  • Construir um ecossistema, não um projeto Isolado: a STEP valoriza projetos com efeitos de arrastamento no ecossistema. Parcerias com universidades, centros tecnológicos ou fornecedores nacionais aumentam a pontuação na avaliação e permitem aceder a financiamento de copromoção com intensidades de apoio em I&D que podem chegar a 85%. Uma grande empresa âncora que integre PME especializadas na sua candidatura cria valor competitivo para todos.

Oportunidades de Financiamento: O Que Está Disponível em Portugal

Portugal tomou uma decisão política sem precedentes no quadro do Portugal 2030 : transferiu aproximadamente 1,1 mil milhões de euros de fundos de coesão para reforçar exclusivamente as prioridades STEP. Não se trata de um novo programa criado do zero, trata-se de uma reprogramação cirúrgica que concentra capital em projetos de alto valor tecnológico e estratégico, sem retirar recursos à generalidade das PME.

O resultado prático é a abertura de avisos com dotações orçamentais significativamente mais elevadas do que o habitual, condições de cofinanciamento que raramente se veem em programas de gestão partilhada, e a inclusão, pela primeira vez em larga escala, de grandes empresas como beneficiárias diretas.

Os avisos STEP no Portugal 2030 organizam-se em torno de dois modelos distintos:

Inovação Produtiva

Esta modalidade é para quem quer escalar. Destina-se a projetos que visem reforçar ou transformar a capacidade produtiva de uma empresa nas áreas das tecnologias críticas. Na prática, isso significa duas realidades distintas:

  • Uma empresa que já produz tecnologias críticas e quer aumentar essa capacidade, construir uma nova linha de produção, expandir uma unidade existente, modernizar processos para ganhar escala.
  • Uma empresa com know-how industrial sólido noutro domínio que quer diversificar fundamentalmente a sua produção para uma tecnologia crítica. Por exemplo, um fabricante de componentes industriais que reconhece nos semicondutores uma oportunidade estratégica e quer reorientar parte da sua capacidade para este novo segmento.

O critério central aqui não é a investigação, mas sim a capacidade de produzir, em solo europeu, algo que hoje a Europa importa ou não produz em quantidade suficiente.

IDI Empresarial (STEP)

Esta modalidade é para quem quer criar. Destina-se a projetos de investigação, desenvolvimento e inovação focados em tecnologias críticas ainda em fase de maturação, desde a investigação industrial aplicada até à validação em protótipo ou linha piloto.

O foco está na criação de propriedade intelectual europeia: algoritmos, patentes, novos materiais, plataformas biotecnológicas, sistemas quânticos. O objetivo é garantir que a inovação que vai alimentar a indústria europeia nas próximas décadas nasce em Portugal e não é licenciada de fora.

Esta modalidade é particularmente relevante para startups deep-tech, spin-offs e empresas com equipas de I&D robustas que trabalham nos limiares tecnológicos dos seus setores. A condição é que o projeto demonstre um salto significativo de maturidade tecnológica e que o resultado final seja uma tecnologia crítica identificada pela Comissão Europeia.

Ambas as modalidades existem nos três domínios prioritários em Portugal: Digital, Biotecnologia e Energia. Dependendo do aviso, podem ser lançadas em simultâneo ou em fases distintas, pelo que o acompanhamento regular do calendário de avisos é essencial.

Conheça aqui os principais avisos e oportunidades de financiamento STEP

Quem Pode Beneficiar dos Apoios STEP?

A elegibilidade foi desenhada para cobrir todo o espectro de entidades com capacidade de executar projetos de tecnologias críticas:

  • PME e startups de base tecnológica: incluindo empresas em fase de prova de conceito industrial ou de primeira escala. A STEP reconhece que parte da disrupção tecnológica nasce em organizações pequenas com equipas técnicas de excelência, e cria condições para que essas empresas não fiquem excluídas por falta de dimensão ou garantias.
  • Grandes empresas: a STEP é um dos raros programas do Portugal 2030 que financia diretamente grandes empresas em projetos de industrialização estratégica. Esta abertura é deliberada: são estas organizações que têm a robustez financeira e operacional para construir as infraestruturas industriais de grande escala que Portugal precisa para ser um nó produtivo relevante na Europa, tais como: gigafábricas, unidades de bioprocessamento, centros de dados soberanos.
  • ENESII (Entidades Não Empresariais do Sistema de I&I) universidades, institutos politécnicos, centros de interface tecnológico e laboratórios colaborativos. Estas entidades são elegíveis sobretudo em projetos de IDI em copromoção, onde aportam o conhecimento científico e a capacidade de investigação que as empresas, isoladamente, raramente têm. A copromoção entre empresas e ENESII é, aliás, a tipologia com acesso às intensidades de apoio mais elevadas, até 85%, precisamente porque é onde o risco técnico é maior e o potencial de criação de propriedade intelectual é mais alto.

A lógica subjacente é a de ecossistema: a soberania tecnológica não se constrói por uma empresa isolada, mas pela articulação entre quem investiga, quem produz e quem escala.

Conclusão: a Europa está a reagir

A escassez de semicondutores que paralisou a indústria automóvel europeia em 2021, a dependência de APIs farmacêuticos asiáticos exposta pela pandemia e a vulnerabilidade energética que a Europa não conseguiu resolver em tempo útil quando o gás russo deixou de ser uma certeza, estes não foram acidentes, foram o resultado de décadas de desindustrialização silenciosa, de externalização da produção, e de uma ilusão de que a globalização tornaria as cadeias de abastecimento resilientes por defeito.

A STEP é, no fundo, a resposta financeira a esse diagnóstico. E o que ela representa não é apenas um programa de incentivos, é uma reconfiguração do que a Europa considera estratégico produzir dentro de portas.

Para Portugal, o momento é singular por duas razões que raramente coincidem: existe capital disponível em volume histórico e existe uma janela de posicionamento que ainda não está fechada. Países como a Alemanha, França ou os Países Baixos já têm ecossistemas industriais densos em semicondutores, clean-tech e biotecnologia. Portugal ainda está a construir os seus. Isso é um handicap em termos de track record, mas é também uma vantagem: quem entrar agora entra em setores em formação, com capacidade de se tornar referência nacional e europeia antes de o mercado estar saturado.

Mas capital disponível e janela aberta não chegam. Uma candidatura STEP de mérito não se improvisa. É preciso um alinhamento estratégico entre o projeto e as prioridades de soberania europeia, robustez técnica suficiente para sustentar o salto de maturidade tecnológica proposto, planos financeiros que demonstrem viabilidade além do período de apoio, e uma narrativa coerente sobre o impacto real na autonomia da UE. Cada um destes elementos leva tempo a construir, a validar internamente e a traduzir numa candidatura que resiste à avaliação. Prepare o seu projeto com antecedência. Comece a estruturar a sua candidatura aqui.

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