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O papel da sustentabilidade ambiental dos negócios no acesso ao crédito

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O papel da sustentabilidade ambiental dos negócios no acesso ao crédito

Numa altura em que o ‘ataque’ às alterações climáticas está a ganhar cada vez maior velocidade, também a banca será chamada a desempenhar um papel neste desígnio global. Como? Para começar, nos critérios que define para a concessão de crédito. E isso significa que também as empresas devem estar atentas e preparar-se para a possibilidade de o custo a que lhes são concedidos os empréstimos aumentar. Ou mesmo para a eventualidade de o acesso a financiamento lhes vir a ser vedado.

 

E não, não são só as empresas que operam em setores de atividade com maior impacto ambiental direto que têm de se adaptar. De uma forma geral, o tecido empresarial tem de ter progressivamente cada vez mais em conta os impactos, mesmo que indiretos, das operações que têm no mercado. A adoção de políticas neutras em termos ambientais no seu funcionamento será cada vez mais valorizada. Seja na atenção dada ao desempenho energético dos edifícios, na utilização de veículos com baixas ou nulas emissões ou na inclusão de modelos promotores de uma economia circular, os “olhos” do setor financeiro e das autoridades vão estar cada vez mais postos nas práticas empresariais nesta área.

A incorporação do impacto ambiental das empresas na análise de risco de crédito das instituições bancárias tenderá a generalizar-se, o que tem como consequência a potencial incorporação desse mesmo risco no custo dos créditos.

 

E porquê? Porque, efetivamente, sendo um risco que se tornou mais premente, a pressão das autoridades e instituições responsáveis sobre a banca para uma reorientação de fluxos de capitais para investimentos sustentáveis vai aumentando. Ou não fosse o caso de o setor bancário ter um papel determinante na atividade empresarial pelos investimentos que decide ou não financiar e pelo custo que associa aos créditos que concede.

 

Convém não esquecer que a União Europeia assumiu o compromisso de atingir a neutralidade das emissões de carbono até 2050 o que vai, inevitavelmente, provocar alterações profundas no tecido empresarial, que terá de se adaptar à nova realidade na forma de trabalhar e produzir. Para a banca, a maior exposição às alterações associadas à transição energética das empresas com maiores emissões de gases com efeito de estufa será outro risco a considerar.

 

Por outro lado, ao mesmo tempo que sobe a fasquia dos objetivos ambientais, o agudizar dos efeitos das alterações climáticas faz-se sentir. A maior frequência de eventos meteorológicos adversos (vagas de calor, cheias, tempestades, incêndios) que temos vindo a observar sentir-se-ão com maior impacto nos setores de atividade e áreas de negócio mais expostos aos riscos climáticos. Esta mudança de cenário leva a que os bancos que os financiam vejam também aumentado o risco associado aos créditos concedidos. Riscos como o climático ou o associado à escassez de matérias-primas expõem não só as empresas – que podem incorrer em perdas quer no seu volume de negócios quer diretamente na qualidade dos seus ativos – mas também quem as financia.

 

O que já está em marcha

Em 2019, os principais bancos portugueses assinaram a ‘Carta de Compromisso para o Financiamento Sustentável’, onde se comprometeram a integrar gradualmente nas suas análises de crédito e investimento os critérios ambientais. Tanto na avaliação dos projetos que financiam, como na avaliação do desempenho da empresa. E comprometeram-se ainda a apoiar ativamente os projetos que contribuam para a conversão para uma economia mais sustentável e amiga do ambiente.

 

A nível europeu, não deverá tardar a chegada de medidas vinculativas vindas de Bruxelas. A pedido da Comissão Europeia, a gestora de ativos Black Rock fez recentemente um levantamento das práticas da banca europeia nesta matéria e concluiu que, embora a análise dos riscos ambientais, sociais e de governo societário esteja a ser progressivamente integrados nas políticas de concessão de crédito, ainda há muito para fazer.

 

O Parlamento Europeu está agora a analisar as conclusões deste relatório e já avisou que vão surgir medidas para acelerar a integração destes riscos nos bancos europeus e, em concreto, nas estruturas internas de controlo de risco das instituições.

 

Ainda assim, e segundo um outro estudo, da Fitch Ratings, realizado em 2020, mais de 60% dos bancos a nível mundial já incluem critérios ambientais (e não só) na análise do risco de crédito. Setores como o mineiro ou o de metais, a agricultura e a indústria têxtil estão entre os mais penalizados por estas políticas.

 

Em paralelo, é possível que ocorra um fenómeno que se assemelha a um processo de discriminação positiva. Em causa podem estar áreas de atividade ou que contribuam ativamente para a melhoria da qualidade ambiental tendem a receber avaliações de risco de crédito mais positivas. Setores como o da tecnologia, telecomunicações, serviços de saúde ou produtos farmacêuticos podem ser alguns dos incluídos.

 

Em Portugal, por exemplo, o Governo já lançou uma linha de crédito ‘Descarbonização e Economia Circular’, disponibilizada através da banca, que pretende apoiar as empresas que invistam em projetos destinados a melhorar a sua eficiência energética e a acelerar a transição para a economia circular.

 

Também do BCE têm chegado novidades. Não só englobou, já há algum tempo, os riscos ligados às alterações climáticas nos principais riscos para o sistema bancário europeu como emitiu, no final do ano passado, um guia de recomendações sobre os riscos climáticos e ambientais.

 

Nesse se lê, por exemplo, que “na gestão do risco de crédito, espera-se que as instituições tenham em conta os riscos climáticos e ambientais em todas as fases pertinentes do processo de concessão de crédito e que monitorizem os riscos nas respetivas carteiras”.

 

Está aí um novo paradigma

Por tudo isto, e se dúvidas houvesse, a incorporação do risco ambiental não só na banca como na atividade empresarial, é um caminho sem retorno. A sua incorporação na concessão de crédito por parte das instituições financeiras vai tornar-se uma prática cada vez mais generalizada.

Tal traduz-se num ainda maior apertar do cerco para as áreas de atividades com maiores riscos ambientais associados, agora também pela via do acesso a financiamento.

Mas, mais do que isso, é um alerta para a importância de, ao mesmo tempo que a pressão externa aumenta, também as empresas integrarem internamente esta mudança de paradigma, garantindo que terão um papel neste objetivo que é, afinal, comum de combate às alterações climáticas.

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